Cigarros, muito cigarros já se queimaram e há muitos ainda por queimar. Tudo que quero, quero pôr para dentro. Nada em mim quer sair, ou não sabe como. Tudo que vejo trago para dentro, fantasio, invento, finjo que entendo e crio um mundo à parte.
No mundo real, não quero as perguntas, não sei as respostas. E criar um microcosmo tão abarrotado de coisas minhas às vezes só me faz pensar como tudo o que crio é simplesmente meu - e por ser só meu é irreal.
Escrevo, ando, fumo. Olho copos sujos, limpos, chaves, isqueiros, bebidas, fitas adesivas... tudo em cima da mesa. Coisas usadas em situações que nem me lembro quais e nem me interesso.
Queria que ela tocasse a campainha.
Fumo. Fumar faz pensar e me faz tragar a mim mesma pra dentro, cada vez mais pra dentro.
Ando, perambulo e assombro o apartamento. A única coisa que fixamente martela em minha cabeça e que existe no mundo real é ela. É ela meu único elo com o mundo de verdade? E se eu não a tenho, então é por que a ponte entre eu e o mundo real não tenho. Ela foi o mais recente acontecimento que me tirou de mim mesma, onde ultimamente ando tão só...
Troveja. Sopram as folhas secas imaginárias. E troveja ainda mais. Em algum lugar há um sentimento nervoso que faz ventar, trovejar e cria clarões no céu.
No céu cinza das pessoas de mentira.
Fumo e me tranco aqui dentro.
Dói.
Apago a luz e quero acender outro cigarro. Respiro melhor quando fumo, ironicamente.
Quero espremer os olhos para o choro sair e os olhos estáo secos feito pedra. Quero abrir o peito e tirar de dentro minha secura, mas o que há dentro de mim não é fluido, não corre, só suga para dentro mais fumaças, mais palavras e mais andanças.
Estou com os dedos trincados e a pele do corpo repleta de feridas. Algo aqui dentro, em meio a toda essa desordem, quer sugar inclusive meu corpo, o que me resta de ainda palpável.
Virei um colapso, um pedaço de coisa prestes a implodir.
Inspiro para implodir. Ponho para dentro mais ar, mais fumaça, mas nada dilui a angústia do não saber, não ter, não entender.
Os pneus dos carros fazem barulho deslizando sobre a pista já molhada. Tchhhh....
Não queria esse som. Queria escutar "shhh.... dorme. Amanhã será outro dia e nesta noite meu corpo vai te aquecer para liquefazer o cinza dentro de você para dele brotarem as lágrimas dos seus olhos. Minhas mãos vão afagar sua testa para acalmar os espamos que seu corpo dará ao deixar sair tanta dor".
Meus olhos se fechariam na segurança da certeza de que amanhã eu teria certeza de alguma coisa.