Ando falado muito pra dentro e pouco ou nada para fora. Penso demais, nada concluo. Trabalho propositalmente numa sala onde raramente tenho contato com outros seres humanos. Não sei se isso é bom ou ruim, por ora. Sei que em breve isso vai se consolidar em uma sociofobia preocupante, mas agora estou me usando da chave secreta do misturar-se a multidão, anonimamente. Aqui é muito fácil passar desapercebido, é tanta gente fazendo o mesmo...
Escolhi um cantinho na internet para desovar pensamentos randômicos. Nas últimas semanas tenho me dedicado a somente duas coisas nas horas vagas (que são bem flexíveis no primeiro ano de doutorado, quando há muitas pressões mas ainda poucas preocupações): ler coisas que inspiram a vontade de escrever e a instrospecção. Clarice Lispector é realmente uma deusa... louca, doida de pedra, mas uma deusa. Não, com essa ainda não desejei me casar (não digo o mesmo quanto a todas as outras doidas), mas adoraria ser teletransportada para um de seus rompantes metafísicos e ficar toda a eternidade vendo-a em seus devaneios, desenhando pensamentos que ainda nascem em mim numa forma muito bruta.
Escolhi um cantinho na internet para desovar pensamentos randômicos. Nas últimas semanas tenho me dedicado a somente duas coisas nas horas vagas (que são bem flexíveis no primeiro ano de doutorado, quando há muitas pressões mas ainda poucas preocupações): ler coisas que inspiram a vontade de escrever e a instrospecção. Clarice Lispector é realmente uma deusa... louca, doida de pedra, mas uma deusa. Não, com essa ainda não desejei me casar (não digo o mesmo quanto a todas as outras doidas), mas adoraria ser teletransportada para um de seus rompantes metafísicos e ficar toda a eternidade vendo-a em seus devaneios, desenhando pensamentos que ainda nascem em mim numa forma muito bruta.
E tenho estado assim, clariceando... E, como ela, não sabia lidar muito bem com a brutalidade das dores da vida real, tal qual os 'amores que não podiam'... não sabia que palavras usar contigo, temia que só o som das minhas palavras (ainda que escritas) perturbariam demasiadamente seu ar e trariam instabilidade à casquinha protetora que você criou para nela fazer hibernar a dor.
Dor... palavra que tenho usado muito, embora sinta-a só em raros momentos. Aguda.
Mas, como eu ia dizendo, penso muito e busco expôr tudo o que penso, por mais que na maioria das vezes seja aconselhada a fazer o contrário. Não consigo. Depositar aqui os meus devaneios tornou-se minha principal forma de comunicação.
E, sem segundos pensamentos vai mais este, aceitando a mais nova persona que me incorporou: a que fala! Ainda que não faça sentido, ainda que seja etéreo demais, ainda que eu pareça louca, perdida e sem identidade. Acho que foi o que me tornei ao virar uma habitante desta grande, impessoal, solitária cidade. Ah, e abarrotada de gente.
Uma pessoinha que mora comigo pediu para dizer que te ama. Amo-te também, flor, num amor tão marcado por admiração e adoração que eu não saberia mensurar.
"Expresso a mim e a ti os meus desejos mais ocultos e consigo com as palavras uma orgíaca beleza confusa. Estremeço de prazer por entre a novidade de usar palavras que formam intenso matagal! Luto por conquistar mais profundamente a minha liberdade de sensações e pensamentos, sem nenhum sentido utilitário:
sou sozinha eu e minha liberdade. É tamanha a liberdade que pode escandalizar um primitivo mas sei que não te escandalizas com a plenitude que consigo e que é sem fronteiras perceptíveis. Esta minha capacidade de viver o que é redondo e amplo- cerco-me por plantas carnívoras e animais legendários, tudo banhado pela tosca e esquerda luz de um sexo mítico"
sou sozinha eu e minha liberdade. É tamanha a liberdade que pode escandalizar um primitivo mas sei que não te escandalizas com a plenitude que consigo e que é sem fronteiras perceptíveis. Esta minha capacidade de viver o que é redondo e amplo- cerco-me por plantas carnívoras e animais legendários, tudo banhado pela tosca e esquerda luz de um sexo mítico"
Clarice Lispector - Água Viva