segunda-feira, 29 de agosto de 2011

(Desespero) pelo amor (alheio) que não podia

Horas buscando a iluminação para escrever e a inspiração chegando mais se parece a algo incômodo e afiado entrando por debaixo das unhas, carregando meus dedos inquietos para o teclado e a minha atenção para longe daqui, bem longe daqui

Vadiando em pensamentos só aparentemente aleatórios, fico de repente focadíssima

Inexplicavelmente as lágrimas sangram
Os pensamentos fluem desordenados
E sem lógica também saem as palavras
O esforço de traduzir uma coisa na outra é inútil e desconcertante

Eu não consigo.

De cá dá pra sentir a dor de K
Silenciosa, pontiaguda, esmagadora

Dentro do peito um aperto
Um amor que não aconteceu está indo embora
Mudança empacotada
Cachorro sedado
Bilhetes na mão
As chaves giram na fechadura pela última vez

Por vezes eles se viram
Em quartos com cortinas farfalhantes
O silêncio assistia-os se amarem

Eles se olhavam nos olhos
Eles se penetravam pelos olhos
De um jeito que humanos desaprenderam a se olhar
E pensavam nos filhos
Com os olhos apaixonados dela
E os cabelos revoltos dele

Tremor pelo que não pôde ser

Vontade de abraçá-la, K
E de engolir toda sua dor para implodi-la longe de você

Atenção senhores passageiros, preparem-se para a despressurização
Sintam as paredes colabando
O mundo ficando sem som
O peito arfando a vontade de correr

Aviões que trazem as pessoas para perto
Um tempo depois também as levam para longe
Fazendo da gente gangorras de gente
Que se cruzam mas não se encontram

E os aviões que sempre me ensinaram a ser especial sempre indo embora...

E tão rápido quanto veio, ela, a escorregadia inspiração, se vai
E, surpreendentemente, horas depois do rompante de palavras sem nexo traduzida na vontade de escrever qualquer coisa, uma mensagem brota na minha caixa de emails

"aqui está cinza e árido, não chove há meses; o sol não tem qualquer piedade e o verde secou, o ar machuca só quando a gente respira... mas por vezes a gente encontra um ipê inacreditavelmente lindo e amarelo, perdido em algum canto dessa cidade sem esquinas. brasília hoje se parece comigo.
vou ficar por aqui"

Vou lá fora, fumo um cigarro, alinho a luz do sol que adentra forte pela copa de uma jabuticabeira bem dentro das minhas pupilas
Os pássaros cantam, as árvores farfalham
Não tenho como ouvir o barulho das batidas do meu coração
O mundo continua seguindo em frente, na sua infindável harmonia que na verdade é uma incrível luta pela sobrevivência 
Vontade de me agachar ao pé da jabuticabeira e ganhar um abraço soterrada em suas fortes raízes

Vontade de arrancar de mim o pedaço que de K está sendo decepado

E na cidade das pessoas de mentira hoje faz um irônico dia azul

o único ponto que me causa algum sofrimento é a consciência do desperdício de amor nesses tempos tão cheios de desamor...