quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Sãopaulidão é um lugar grande, escuro e sem olhos, ouvidos ou filtros.

Ando falado muito pra dentro e pouco ou nada para fora. Penso demais, nada concluo. Trabalho propositalmente numa sala onde raramente tenho contato com outros seres humanos. Não sei se isso é bom ou ruim, por ora. Sei que em breve isso vai se consolidar em uma sociofobia preocupante, mas agora estou me usando da chave secreta do misturar-se a multidão, anonimamente. Aqui é muito fácil passar desapercebido, é tanta gente fazendo o mesmo...

Escolhi um cantinho na internet para desovar pensamentos randômicos. Nas últimas semanas tenho me dedicado a somente duas coisas nas horas vagas (que são bem flexíveis no primeiro ano de doutorado, quando há muitas pressões mas ainda poucas preocupações): ler coisas que inspiram a vontade de escrever e a instrospecção. Clarice Lispector é realmente uma deusa... louca, doida de pedra, mas uma deusa. Não, com essa ainda não desejei me casar (não digo o mesmo quanto a todas as outras doidas), mas adoraria ser teletransportada para um de seus rompantes metafísicos e ficar toda a eternidade vendo-a em seus devaneios, desenhando pensamentos que ainda nascem em mim numa forma muito bruta.

E tenho estado assim, clariceando... E, como ela, não sabia lidar muito bem com a brutalidade das dores da vida real, tal qual os 'amores que não podiam'... não sabia que palavras usar contigo, temia que só o som das minhas palavras (ainda que escritas) perturbariam demasiadamente seu ar e trariam instabilidade à casquinha protetora que você criou para nela fazer hibernar a dor.

Dor... palavra que tenho usado muito, embora sinta-a só em raros momentos. Aguda.

Mas, como eu ia dizendo, penso muito e busco expôr tudo o que penso, por mais que na maioria das vezes seja aconselhada a fazer o contrário. Não consigo. Depositar aqui os meus devaneios tornou-se minha principal forma de comunicação.

E, sem segundos pensamentos vai mais este, aceitando a mais nova persona que me incorporou: a que fala! Ainda que não faça sentido, ainda que seja etéreo demais, ainda que eu pareça louca, perdida e sem identidade. Acho que foi o que me tornei ao virar uma habitante desta grande, impessoal, solitária cidade. Ah, e abarrotada de gente.

Uma pessoinha que mora comigo pediu para dizer que te ama. Amo-te também, flor, num amor tão marcado por admiração e adoração que eu não saberia mensurar.

"Expresso a mim e a ti os meus desejos mais ocultos e consigo com as palavras uma orgíaca beleza confusa. Estremeço de prazer por entre a novidade de usar palavras que formam intenso matagal! Luto por conquistar mais profundamente a minha liberdade de sensações e pensamentos, sem nenhum sentido utilitário:
sou sozinha eu e minha liberdade. É tamanha a liberdade que pode escandalizar um primitivo mas sei que não te escandalizas com a plenitude que consigo e que é sem fronteiras perceptíveis. Esta minha capacidade de viver o que é redondo e amplo- cerco-me por plantas carnívoras e animais legendários, tudo banhado pela tosca e esquerda luz de um sexo mítico"
Clarice Lispector - Água Viva

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

(Desespero) pelo amor (alheio) que não podia

Horas buscando a iluminação para escrever e a inspiração chegando mais se parece a algo incômodo e afiado entrando por debaixo das unhas, carregando meus dedos inquietos para o teclado e a minha atenção para longe daqui, bem longe daqui

Vadiando em pensamentos só aparentemente aleatórios, fico de repente focadíssima

Inexplicavelmente as lágrimas sangram
Os pensamentos fluem desordenados
E sem lógica também saem as palavras
O esforço de traduzir uma coisa na outra é inútil e desconcertante

Eu não consigo.

De cá dá pra sentir a dor de K
Silenciosa, pontiaguda, esmagadora

Dentro do peito um aperto
Um amor que não aconteceu está indo embora
Mudança empacotada
Cachorro sedado
Bilhetes na mão
As chaves giram na fechadura pela última vez

Por vezes eles se viram
Em quartos com cortinas farfalhantes
O silêncio assistia-os se amarem

Eles se olhavam nos olhos
Eles se penetravam pelos olhos
De um jeito que humanos desaprenderam a se olhar
E pensavam nos filhos
Com os olhos apaixonados dela
E os cabelos revoltos dele

Tremor pelo que não pôde ser

Vontade de abraçá-la, K
E de engolir toda sua dor para implodi-la longe de você

Atenção senhores passageiros, preparem-se para a despressurização
Sintam as paredes colabando
O mundo ficando sem som
O peito arfando a vontade de correr

Aviões que trazem as pessoas para perto
Um tempo depois também as levam para longe
Fazendo da gente gangorras de gente
Que se cruzam mas não se encontram

E os aviões que sempre me ensinaram a ser especial sempre indo embora...

E tão rápido quanto veio, ela, a escorregadia inspiração, se vai
E, surpreendentemente, horas depois do rompante de palavras sem nexo traduzida na vontade de escrever qualquer coisa, uma mensagem brota na minha caixa de emails

"aqui está cinza e árido, não chove há meses; o sol não tem qualquer piedade e o verde secou, o ar machuca só quando a gente respira... mas por vezes a gente encontra um ipê inacreditavelmente lindo e amarelo, perdido em algum canto dessa cidade sem esquinas. brasília hoje se parece comigo.
vou ficar por aqui"

Vou lá fora, fumo um cigarro, alinho a luz do sol que adentra forte pela copa de uma jabuticabeira bem dentro das minhas pupilas
Os pássaros cantam, as árvores farfalham
Não tenho como ouvir o barulho das batidas do meu coração
O mundo continua seguindo em frente, na sua infindável harmonia que na verdade é uma incrível luta pela sobrevivência 
Vontade de me agachar ao pé da jabuticabeira e ganhar um abraço soterrada em suas fortes raízes

Vontade de arrancar de mim o pedaço que de K está sendo decepado

E na cidade das pessoas de mentira hoje faz um irônico dia azul

o único ponto que me causa algum sofrimento é a consciência do desperdício de amor nesses tempos tão cheios de desamor...

domingo, 21 de agosto de 2011

Só aquilo

Porque eu odeio ser concluída da forma mais simplista e óbvia - Ah, ela é louca, depressiva e prolixa até o último suspiro de ar - eu obsessivamente evito, abomino e rejeito o impulso de resumir pessoas a só aquilo.
E por aquilo me refiro a reduzir as pessoas a poucas palavras, resumi-las aos parâmetros que meu sistema sensorial pode monitorar. Eu gosto mesmo é do que eu não vejo e preciso cavar para descobrir. Eu gosto mesmo é de como desconstruo e as pessoas aqui dentro, analisando peça por peça, no meu ateliê de análise do comportamento humano ao qual posso chamar resumidamente de minha cabeça.
O problema é quando cavo e me percebo desfolhando camadas de uma cebola. E uma cebola, sou forçada a concluir, é só uma cebola.
Eu gosto das pessoas por ângulos inusitados. De entender o propósito do calculista. Da graciosidade de dormir atravessada na cama com uma meia só. De ver que até nos mais rasos há alguma profundidade. Eu gosto das pessoas como quem gosta de um quebra-cabeça. Se eu pudesse largaria do ciclo dormir-acordar-trabalhar-dormir e desmontaria e montaria um a um, numa vida em que tempo não faria sentido.

Nesta manhã fui despertada por uma lembrança que me trouxe uma conclusão invasivamente amarga feito caju verde. Repuxou minha língua e fez minha alma se revirar por dentro.

(O telefone toca e não quero atender. Aliás, quero nem ouvir... Não quero apertar botão, dizer alô e responder que tá tudo bem e que hoje tá frio e cinza (como tem sido São Paulo desde tempos imemoriais). Agora não sou mais sentidos. Talvez nem sentido mesmo eu agora faça.
Voltemos...)

Fez estatelar meus olhos e zumbir um agudo na minha cabeça. Olhei o teto. Já não tinha mais sono. Pensar me tira o sono e hoje acordei pensando...
Lembrei de quando fui encontrá-la depois do trabalho, no cruzamento da Paulista com a Campinas. Dobramos na Alameda Casa Branca, contornamos o MASP em direção à Nove de Julho.
Caminhava à minha frente e suas costas fugiam de mim, me ignorando com o silêncio dos coagidos. Segui-a, "não como anda um corpo, mas um sentimento".

Eu vinha reclamando desde a Paulista e de novo reclamei.
Você sabe que você não se orgulha da namorada que está sendo.
Ela riu, deixou escapar uma lâmina de ar por entre as frestas dos lábios e riu. Como odiei lembrar daquele som que o ar fez.
Pfff

Tomamos o ônibus e ela sentou ao meu lado.
O que você tem? O que você quer? O que te falta? Você queria que eu fizesse o que?
Odiei suas perguntas de mil respostas, às quais não pude dar resposta alguma.
Queria que nós ficássemos se esfregando que nem leãozinho?

Ela costumava fazer amor comigo segurando minhas costas com as mãos em forma de gancho, me imobilizando para mover em cima de mim o corpo dela inteiro. As pernas dela abriam as minhas, a propulsão dos movimentos firmes de sua cintura me impelia cada vez mais para dentro de nós, para que o que saía de mim se misturasse ao que saía dela.
Minha boca ficava presa à dela, com minha língua se desdobrando em movimentos desordenados, histéricos, desesperados. Eu deixava minha boca na dela para que, com sua língua, ela acalmasse a minha e abafasse o som sem sentido daquilo que só é dito nestes insólitos momentos.
Meus poros se abriam para que eu me desprendesse de mim. E naquele diminuto espaço entre meu corpo e o dela, onde nem partículas sub-atômicas cabiam, nos fundíamos, nos liquefazíamos e deslizávamos na água que nosso próprio corpo deixou sair.
Largava sua boca. Precisava de ar agora.
Ainda sentindo meu corpo faiscar, gostava de sentir seus cabelos resvalarem no meu rosto, como o toque do vento. Voltando à consciência, segurava seus braços e sentia o bíceps fortemente contraído. O músculo tonificado pela sua rotina de diariamente carregar a filha já grande nos braços. Eu me agarrava à proteção daquele músculo, fechava os olhos e sentia por longos minutos sua cabeça escorregando na minha nuca, escondendo seu rosto no meu pescoço. Como um felino que tenta acordar seu dono.

Queria que nós ficássemos se esfregando que nem leãozinho?
Tremendo a boca e com os olhos já úmidos, respondi.
Queria.

Não me lembro o que ouvi como resposta. Hoje, meses depois, acordei com a terrível constatação fora de hora: era dezembro. Ela já havia me traído e, por tê-lo feito, transfigurou-se numa pessoa que eu já não mais conhecia. Hoje cato pela nossa história vestígios do que ela fez após ter me traído e só agora é que me dói.

Impune, negligente, constrangida com a própria deslealdade, ela me ouviu acusá-la.
Você sabe que você não se orgulha da namorada que está sendo.
Impune, negligente, constrangida com a própria deslealdade, ela me respondeu um debochado sopro de ar.

Seja por covardia ou por canalhice, dá igual. Pelo menos naquele momento ela foi só isso.
Só aquilo.

"imediatamente após aquele ponto final, uma lágrima escorreu dos meus olhos e eu fiquei triste demais.
muito, muito mais do que eu esperava"

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Para uma bela alma com cabelos de passarinho

Se não conseguir remar agora, levo teu remo no meu

Sobre K

Eu não sei o que foi que nos tornamos, nem o que foi que eu me tornei desde que estou aqui. Não consigo dizer que gosto mais de mim, mas sei que o 'ser eu' pesa um pouco menos.

Queria poder me traduzir, falar das depressões, das vontades de sumir, morrer ou simplesmente ir para Ouro Preto... dos desapontamentos e da falta de motivo que tenho para deixar de te amar. Da vontade de conhecer as pessoas e ver que elas são pelo menos um pouquinho mais do que é dito delas. Tanto se diz de ruim, amor, como as pessoas se apunhalam nestes lados de cá!

Fui à Brasília me lembrar da falta de ar que era viver uma vida que se encerrava em si, que era só aquilo ali... Viver aquilo era um cárcere a céu aberto. O céu de lá é azul e os ipês ainda amarelam na estação seca. A cidade tão horizontal mas fisicamente comedida... O fim de Brasília ficava lá onde a vista alcança. Curioso que aqui o céu seja cinza, o ar sufocante e o concreto não nos deixe ver o horizonte, mas aqui eu consigo respirar... A única e (permita-me a licença poética) mais imensa alma que me faria lá ficar era K. Porém, eu não podia sugar toda sua luz para ela holofotizar só a mim. Eu preciso de muita, muita luz e só aqui na cidade cinza é que posso aprender a viver sem.

O que você está fazendo?
Esquecendo
Queria você aqui
Cuidado com o que você deseja.
Andei mesmo desejando coisas erradas. E o que mais queria delas não consegui - ouvidos, abraços e boca (para fins verbais!). Queria compartilhar algo mais que só fluidos corporais. Ainda devo temer o que desejo?
Ainda deve correr atrás.

K sabe que para renascer em meio a tudo aquilo ela precisa se fechar. Nada de escândalos ou corações partidos expostos na cara. Nade medir de quem é a dor maior. Nada de fins justificando os meios... Isso é dissipar energia.
K não é daqui, K não é dessa gente.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Shhh

Cigarros, muito cigarros já se queimaram e há muitos ainda por queimar. Tudo que quero, quero pôr para dentro. Nada em mim quer sair, ou não sabe como. Tudo que vejo trago para dentro, fantasio, invento, finjo que entendo e crio um mundo à parte.
No mundo real, não quero as perguntas, não sei as respostas. E criar um microcosmo tão abarrotado de coisas minhas às vezes só me faz pensar como tudo o que crio é simplesmente meu - e por ser só meu é irreal.
Escrevo, ando, fumo. Olho copos sujos, limpos, chaves, isqueiros, bebidas, fitas adesivas... tudo em cima da mesa. Coisas usadas em situações que nem me lembro quais e nem me interesso.
Queria que ela tocasse a campainha.
Fumo. Fumar faz pensar e me faz tragar a mim mesma pra dentro, cada vez mais pra dentro.
Ando, perambulo e assombro o apartamento. A única coisa que fixamente martela em minha cabeça e que existe no mundo real é ela. É ela meu único elo com o mundo de verdade? E se eu não a tenho, então é por que a ponte entre eu e o mundo real não tenho. Ela foi o mais recente acontecimento que me tirou de mim mesma, onde ultimamente ando tão só...
Troveja. Sopram as folhas secas imaginárias. E troveja ainda mais. Em algum lugar há um sentimento nervoso que faz ventar, trovejar e cria clarões no céu.
No céu cinza das pessoas de mentira.
Fumo e me tranco aqui dentro.
Dói.
Apago a luz e quero acender outro cigarro. Respiro melhor quando fumo, ironicamente.
Quero espremer os olhos para o choro sair e os olhos estáo secos feito pedra. Quero abrir o peito e tirar de dentro minha secura, mas o que há dentro de mim não é fluido, não corre, só suga para dentro mais fumaças, mais palavras e mais andanças.
Estou com os dedos trincados e a pele do corpo repleta de feridas. Algo aqui dentro, em meio a toda essa desordem, quer sugar inclusive meu corpo, o que me resta de ainda palpável.
Virei um colapso, um pedaço de coisa prestes a implodir.
Inspiro para implodir. Ponho para dentro mais ar, mais fumaça, mas nada dilui a angústia do não saber, não ter, não entender.
Os pneus dos carros fazem barulho deslizando sobre a pista já molhada. Tchhhh....
Não queria esse som. Queria escutar "shhh.... dorme. Amanhã será outro dia e nesta noite meu corpo vai te aquecer para liquefazer o cinza dentro de você para dele brotarem as lágrimas dos seus olhos. Minhas mãos vão afagar sua testa para acalmar os espamos que seu corpo dará ao deixar sair tanta dor".
Meus olhos se fechariam na segurança da certeza de que amanhã eu teria certeza de alguma coisa.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Procura-se

Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.

Sempre ela - Clarice!