segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Precisa?


Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto — e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever te­nho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras — quais? talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo.

C. Lispector (Um Sopro de Vida)

sábado, 1 de outubro de 2011

O Valioso Tempo dos Maduros

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro. 
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas... As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte. Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua
mortalidade.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!


Ricardo Gondim

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Perdidas na selva de pedra

Eu quero um colo, um berço
Um braço quente
Em torno ao meu pescoço
E uma voz que cante baixo
E pareça querer me fazer chorar
Eu quero um calor no inverno
Um extravio morno da minha consciência
E depois em som
Um sonho calmo
Um espaço enorme
Como a lua rodando entre as estrelas 

Fernando Pessoa

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A sort of fairy tale

Dor não se mede. E passei um bom tempo com a minha em níveis aflitos. Vou me casar este prazer e, vez ou outra, com a libertinagem também - agora que posso tê-los.
A única coisa desagradável é que a inspiração advinda da alegria ainda me é estrangeira. Mas não por muito tempo...

"Apesar de todos os medos, escolho a ousadia.
Apesar dos ferros, construo a dura realidade.
Prefiro a loucura à realidade, 
e um par de asas tortas aos limites da comprovação e da segurança.
Eu sou assim, pelo menos assim quero me imaginar: 
a que explode o ponto e arqueia a linha, 
e traça o contorno que ela mesma há de romper.
Desculpem, mas preciso lhes dizer: Eu quero o delírio."
Lya Luft


terça-feira, 13 de setembro de 2011

Tô me afastando de tudo que me atrasa, me engana, me segura e me retém. 
Fui ser feliz, e não volto.

Caio Fernando Abreu

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Canção do dia de sempre

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...


Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...


E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...


E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.


Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.


Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!


E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...


Mário Quintana

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Sãopaulidão é um lugar grande, escuro e sem olhos, ouvidos ou filtros.

Ando falado muito pra dentro e pouco ou nada para fora. Penso demais, nada concluo. Trabalho propositalmente numa sala onde raramente tenho contato com outros seres humanos. Não sei se isso é bom ou ruim, por ora. Sei que em breve isso vai se consolidar em uma sociofobia preocupante, mas agora estou me usando da chave secreta do misturar-se a multidão, anonimamente. Aqui é muito fácil passar desapercebido, é tanta gente fazendo o mesmo...

Escolhi um cantinho na internet para desovar pensamentos randômicos. Nas últimas semanas tenho me dedicado a somente duas coisas nas horas vagas (que são bem flexíveis no primeiro ano de doutorado, quando há muitas pressões mas ainda poucas preocupações): ler coisas que inspiram a vontade de escrever e a instrospecção. Clarice Lispector é realmente uma deusa... louca, doida de pedra, mas uma deusa. Não, com essa ainda não desejei me casar (não digo o mesmo quanto a todas as outras doidas), mas adoraria ser teletransportada para um de seus rompantes metafísicos e ficar toda a eternidade vendo-a em seus devaneios, desenhando pensamentos que ainda nascem em mim numa forma muito bruta.

E tenho estado assim, clariceando... E, como ela, não sabia lidar muito bem com a brutalidade das dores da vida real, tal qual os 'amores que não podiam'... não sabia que palavras usar contigo, temia que só o som das minhas palavras (ainda que escritas) perturbariam demasiadamente seu ar e trariam instabilidade à casquinha protetora que você criou para nela fazer hibernar a dor.

Dor... palavra que tenho usado muito, embora sinta-a só em raros momentos. Aguda.

Mas, como eu ia dizendo, penso muito e busco expôr tudo o que penso, por mais que na maioria das vezes seja aconselhada a fazer o contrário. Não consigo. Depositar aqui os meus devaneios tornou-se minha principal forma de comunicação.

E, sem segundos pensamentos vai mais este, aceitando a mais nova persona que me incorporou: a que fala! Ainda que não faça sentido, ainda que seja etéreo demais, ainda que eu pareça louca, perdida e sem identidade. Acho que foi o que me tornei ao virar uma habitante desta grande, impessoal, solitária cidade. Ah, e abarrotada de gente.

Uma pessoinha que mora comigo pediu para dizer que te ama. Amo-te também, flor, num amor tão marcado por admiração e adoração que eu não saberia mensurar.

"Expresso a mim e a ti os meus desejos mais ocultos e consigo com as palavras uma orgíaca beleza confusa. Estremeço de prazer por entre a novidade de usar palavras que formam intenso matagal! Luto por conquistar mais profundamente a minha liberdade de sensações e pensamentos, sem nenhum sentido utilitário:
sou sozinha eu e minha liberdade. É tamanha a liberdade que pode escandalizar um primitivo mas sei que não te escandalizas com a plenitude que consigo e que é sem fronteiras perceptíveis. Esta minha capacidade de viver o que é redondo e amplo- cerco-me por plantas carnívoras e animais legendários, tudo banhado pela tosca e esquerda luz de um sexo mítico"
Clarice Lispector - Água Viva

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

(Desespero) pelo amor (alheio) que não podia

Horas buscando a iluminação para escrever e a inspiração chegando mais se parece a algo incômodo e afiado entrando por debaixo das unhas, carregando meus dedos inquietos para o teclado e a minha atenção para longe daqui, bem longe daqui

Vadiando em pensamentos só aparentemente aleatórios, fico de repente focadíssima

Inexplicavelmente as lágrimas sangram
Os pensamentos fluem desordenados
E sem lógica também saem as palavras
O esforço de traduzir uma coisa na outra é inútil e desconcertante

Eu não consigo.

De cá dá pra sentir a dor de K
Silenciosa, pontiaguda, esmagadora

Dentro do peito um aperto
Um amor que não aconteceu está indo embora
Mudança empacotada
Cachorro sedado
Bilhetes na mão
As chaves giram na fechadura pela última vez

Por vezes eles se viram
Em quartos com cortinas farfalhantes
O silêncio assistia-os se amarem

Eles se olhavam nos olhos
Eles se penetravam pelos olhos
De um jeito que humanos desaprenderam a se olhar
E pensavam nos filhos
Com os olhos apaixonados dela
E os cabelos revoltos dele

Tremor pelo que não pôde ser

Vontade de abraçá-la, K
E de engolir toda sua dor para implodi-la longe de você

Atenção senhores passageiros, preparem-se para a despressurização
Sintam as paredes colabando
O mundo ficando sem som
O peito arfando a vontade de correr

Aviões que trazem as pessoas para perto
Um tempo depois também as levam para longe
Fazendo da gente gangorras de gente
Que se cruzam mas não se encontram

E os aviões que sempre me ensinaram a ser especial sempre indo embora...

E tão rápido quanto veio, ela, a escorregadia inspiração, se vai
E, surpreendentemente, horas depois do rompante de palavras sem nexo traduzida na vontade de escrever qualquer coisa, uma mensagem brota na minha caixa de emails

"aqui está cinza e árido, não chove há meses; o sol não tem qualquer piedade e o verde secou, o ar machuca só quando a gente respira... mas por vezes a gente encontra um ipê inacreditavelmente lindo e amarelo, perdido em algum canto dessa cidade sem esquinas. brasília hoje se parece comigo.
vou ficar por aqui"

Vou lá fora, fumo um cigarro, alinho a luz do sol que adentra forte pela copa de uma jabuticabeira bem dentro das minhas pupilas
Os pássaros cantam, as árvores farfalham
Não tenho como ouvir o barulho das batidas do meu coração
O mundo continua seguindo em frente, na sua infindável harmonia que na verdade é uma incrível luta pela sobrevivência 
Vontade de me agachar ao pé da jabuticabeira e ganhar um abraço soterrada em suas fortes raízes

Vontade de arrancar de mim o pedaço que de K está sendo decepado

E na cidade das pessoas de mentira hoje faz um irônico dia azul

o único ponto que me causa algum sofrimento é a consciência do desperdício de amor nesses tempos tão cheios de desamor...

domingo, 21 de agosto de 2011

Só aquilo

Porque eu odeio ser concluída da forma mais simplista e óbvia - Ah, ela é louca, depressiva e prolixa até o último suspiro de ar - eu obsessivamente evito, abomino e rejeito o impulso de resumir pessoas a só aquilo.
E por aquilo me refiro a reduzir as pessoas a poucas palavras, resumi-las aos parâmetros que meu sistema sensorial pode monitorar. Eu gosto mesmo é do que eu não vejo e preciso cavar para descobrir. Eu gosto mesmo é de como desconstruo e as pessoas aqui dentro, analisando peça por peça, no meu ateliê de análise do comportamento humano ao qual posso chamar resumidamente de minha cabeça.
O problema é quando cavo e me percebo desfolhando camadas de uma cebola. E uma cebola, sou forçada a concluir, é só uma cebola.
Eu gosto das pessoas por ângulos inusitados. De entender o propósito do calculista. Da graciosidade de dormir atravessada na cama com uma meia só. De ver que até nos mais rasos há alguma profundidade. Eu gosto das pessoas como quem gosta de um quebra-cabeça. Se eu pudesse largaria do ciclo dormir-acordar-trabalhar-dormir e desmontaria e montaria um a um, numa vida em que tempo não faria sentido.

Nesta manhã fui despertada por uma lembrança que me trouxe uma conclusão invasivamente amarga feito caju verde. Repuxou minha língua e fez minha alma se revirar por dentro.

(O telefone toca e não quero atender. Aliás, quero nem ouvir... Não quero apertar botão, dizer alô e responder que tá tudo bem e que hoje tá frio e cinza (como tem sido São Paulo desde tempos imemoriais). Agora não sou mais sentidos. Talvez nem sentido mesmo eu agora faça.
Voltemos...)

Fez estatelar meus olhos e zumbir um agudo na minha cabeça. Olhei o teto. Já não tinha mais sono. Pensar me tira o sono e hoje acordei pensando...
Lembrei de quando fui encontrá-la depois do trabalho, no cruzamento da Paulista com a Campinas. Dobramos na Alameda Casa Branca, contornamos o MASP em direção à Nove de Julho.
Caminhava à minha frente e suas costas fugiam de mim, me ignorando com o silêncio dos coagidos. Segui-a, "não como anda um corpo, mas um sentimento".

Eu vinha reclamando desde a Paulista e de novo reclamei.
Você sabe que você não se orgulha da namorada que está sendo.
Ela riu, deixou escapar uma lâmina de ar por entre as frestas dos lábios e riu. Como odiei lembrar daquele som que o ar fez.
Pfff

Tomamos o ônibus e ela sentou ao meu lado.
O que você tem? O que você quer? O que te falta? Você queria que eu fizesse o que?
Odiei suas perguntas de mil respostas, às quais não pude dar resposta alguma.
Queria que nós ficássemos se esfregando que nem leãozinho?

Ela costumava fazer amor comigo segurando minhas costas com as mãos em forma de gancho, me imobilizando para mover em cima de mim o corpo dela inteiro. As pernas dela abriam as minhas, a propulsão dos movimentos firmes de sua cintura me impelia cada vez mais para dentro de nós, para que o que saía de mim se misturasse ao que saía dela.
Minha boca ficava presa à dela, com minha língua se desdobrando em movimentos desordenados, histéricos, desesperados. Eu deixava minha boca na dela para que, com sua língua, ela acalmasse a minha e abafasse o som sem sentido daquilo que só é dito nestes insólitos momentos.
Meus poros se abriam para que eu me desprendesse de mim. E naquele diminuto espaço entre meu corpo e o dela, onde nem partículas sub-atômicas cabiam, nos fundíamos, nos liquefazíamos e deslizávamos na água que nosso próprio corpo deixou sair.
Largava sua boca. Precisava de ar agora.
Ainda sentindo meu corpo faiscar, gostava de sentir seus cabelos resvalarem no meu rosto, como o toque do vento. Voltando à consciência, segurava seus braços e sentia o bíceps fortemente contraído. O músculo tonificado pela sua rotina de diariamente carregar a filha já grande nos braços. Eu me agarrava à proteção daquele músculo, fechava os olhos e sentia por longos minutos sua cabeça escorregando na minha nuca, escondendo seu rosto no meu pescoço. Como um felino que tenta acordar seu dono.

Queria que nós ficássemos se esfregando que nem leãozinho?
Tremendo a boca e com os olhos já úmidos, respondi.
Queria.

Não me lembro o que ouvi como resposta. Hoje, meses depois, acordei com a terrível constatação fora de hora: era dezembro. Ela já havia me traído e, por tê-lo feito, transfigurou-se numa pessoa que eu já não mais conhecia. Hoje cato pela nossa história vestígios do que ela fez após ter me traído e só agora é que me dói.

Impune, negligente, constrangida com a própria deslealdade, ela me ouviu acusá-la.
Você sabe que você não se orgulha da namorada que está sendo.
Impune, negligente, constrangida com a própria deslealdade, ela me respondeu um debochado sopro de ar.

Seja por covardia ou por canalhice, dá igual. Pelo menos naquele momento ela foi só isso.
Só aquilo.

"imediatamente após aquele ponto final, uma lágrima escorreu dos meus olhos e eu fiquei triste demais.
muito, muito mais do que eu esperava"

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Para uma bela alma com cabelos de passarinho

Se não conseguir remar agora, levo teu remo no meu

Sobre K

Eu não sei o que foi que nos tornamos, nem o que foi que eu me tornei desde que estou aqui. Não consigo dizer que gosto mais de mim, mas sei que o 'ser eu' pesa um pouco menos.

Queria poder me traduzir, falar das depressões, das vontades de sumir, morrer ou simplesmente ir para Ouro Preto... dos desapontamentos e da falta de motivo que tenho para deixar de te amar. Da vontade de conhecer as pessoas e ver que elas são pelo menos um pouquinho mais do que é dito delas. Tanto se diz de ruim, amor, como as pessoas se apunhalam nestes lados de cá!

Fui à Brasília me lembrar da falta de ar que era viver uma vida que se encerrava em si, que era só aquilo ali... Viver aquilo era um cárcere a céu aberto. O céu de lá é azul e os ipês ainda amarelam na estação seca. A cidade tão horizontal mas fisicamente comedida... O fim de Brasília ficava lá onde a vista alcança. Curioso que aqui o céu seja cinza, o ar sufocante e o concreto não nos deixe ver o horizonte, mas aqui eu consigo respirar... A única e (permita-me a licença poética) mais imensa alma que me faria lá ficar era K. Porém, eu não podia sugar toda sua luz para ela holofotizar só a mim. Eu preciso de muita, muita luz e só aqui na cidade cinza é que posso aprender a viver sem.

O que você está fazendo?
Esquecendo
Queria você aqui
Cuidado com o que você deseja.
Andei mesmo desejando coisas erradas. E o que mais queria delas não consegui - ouvidos, abraços e boca (para fins verbais!). Queria compartilhar algo mais que só fluidos corporais. Ainda devo temer o que desejo?
Ainda deve correr atrás.

K sabe que para renascer em meio a tudo aquilo ela precisa se fechar. Nada de escândalos ou corações partidos expostos na cara. Nade medir de quem é a dor maior. Nada de fins justificando os meios... Isso é dissipar energia.
K não é daqui, K não é dessa gente.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Shhh

Cigarros, muito cigarros já se queimaram e há muitos ainda por queimar. Tudo que quero, quero pôr para dentro. Nada em mim quer sair, ou não sabe como. Tudo que vejo trago para dentro, fantasio, invento, finjo que entendo e crio um mundo à parte.
No mundo real, não quero as perguntas, não sei as respostas. E criar um microcosmo tão abarrotado de coisas minhas às vezes só me faz pensar como tudo o que crio é simplesmente meu - e por ser só meu é irreal.
Escrevo, ando, fumo. Olho copos sujos, limpos, chaves, isqueiros, bebidas, fitas adesivas... tudo em cima da mesa. Coisas usadas em situações que nem me lembro quais e nem me interesso.
Queria que ela tocasse a campainha.
Fumo. Fumar faz pensar e me faz tragar a mim mesma pra dentro, cada vez mais pra dentro.
Ando, perambulo e assombro o apartamento. A única coisa que fixamente martela em minha cabeça e que existe no mundo real é ela. É ela meu único elo com o mundo de verdade? E se eu não a tenho, então é por que a ponte entre eu e o mundo real não tenho. Ela foi o mais recente acontecimento que me tirou de mim mesma, onde ultimamente ando tão só...
Troveja. Sopram as folhas secas imaginárias. E troveja ainda mais. Em algum lugar há um sentimento nervoso que faz ventar, trovejar e cria clarões no céu.
No céu cinza das pessoas de mentira.
Fumo e me tranco aqui dentro.
Dói.
Apago a luz e quero acender outro cigarro. Respiro melhor quando fumo, ironicamente.
Quero espremer os olhos para o choro sair e os olhos estáo secos feito pedra. Quero abrir o peito e tirar de dentro minha secura, mas o que há dentro de mim não é fluido, não corre, só suga para dentro mais fumaças, mais palavras e mais andanças.
Estou com os dedos trincados e a pele do corpo repleta de feridas. Algo aqui dentro, em meio a toda essa desordem, quer sugar inclusive meu corpo, o que me resta de ainda palpável.
Virei um colapso, um pedaço de coisa prestes a implodir.
Inspiro para implodir. Ponho para dentro mais ar, mais fumaça, mas nada dilui a angústia do não saber, não ter, não entender.
Os pneus dos carros fazem barulho deslizando sobre a pista já molhada. Tchhhh....
Não queria esse som. Queria escutar "shhh.... dorme. Amanhã será outro dia e nesta noite meu corpo vai te aquecer para liquefazer o cinza dentro de você para dele brotarem as lágrimas dos seus olhos. Minhas mãos vão afagar sua testa para acalmar os espamos que seu corpo dará ao deixar sair tanta dor".
Meus olhos se fechariam na segurança da certeza de que amanhã eu teria certeza de alguma coisa.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Procura-se

Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.

Sempre ela - Clarice!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

No meio da rua

http://www.youtube.com/watch?v=6Uu2v2xJ5L8

Não sei sentir, não sei ser humano,
Não sei conviver de dentro da alma triste, com os homens,
Meus irmãos na terra.
Não sei ser útil, mesmo sentindo ser prático, cotidiano, nítido.
Vi todas as coisas e maravilhei-me de tudo.
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco, não sei qual, e eu sofri.
Eu vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos.
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente.
Mas para toda gente isso foi normal e instintivo.
Para mim sempre foi a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.
Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto demais ou de menos.
Seja como for a vida, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cotar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar pulos, de ficar no chão,
De sair para fora de todas as casas, de todas as lógicas, de todas as sacadas
E ir ser selvagem entre árvores e esquecimentos.
http://www.youtube.com/watch?v=6Uu2v2xJ5L8

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Por que São Paulo? III

Amor

"você é leonina demais!!!!! tudo por amor... cada um é como é... e a felicidade é um conceito absolutamente particular... já falamos sobre isso... espero apenas que mesmo voce seja feliz (mesmo que isso custe uma eterna saudade - minha!). já estava me preparando para ter um canto disponível para uma viagem a alguma cidadezinha francesa... são paulo, enfim, é mais pertinho, e, você sabe, gosto imenso daquela terra... (gostei da escolha de um cafofo perto de uma estação de metrô, muito conveniente!...)"

Em 14/setembro/2010

Por que São Paulo? II

Idéias fixas

Hoje encontrei um amigo que realizou minha maior vontade: foi embora para ser. Para sê-lo de verdade. Tornou-se uma pessoa incrivelmente mais interessante, aliás. Temi encontrá-lo e ver que ele havia se tornado tudo que eu ainda não era. Entretanto, voltei para casa com bons sentimentos, a procura de quem compartilhá-los.
E dele recebi uma mensagem:
"Eu acho que você tem toda a capacidade do mundo de fazer algo parecido, agora que eu sei exatamente quantas cabeças o bicho tem (não são sete), se você quiser. Não sei qual é o melhor caminho pra você tomar, nem você sabe. Mas eu não achava que meu marasmo em Brasília combinava com minha inteligência, e eu não acho que a sua apatia e a sua insatisfação combinem com a sua"

Em 07/julho/2010

Por que São Paulo?

Mágoas e (auto-)desencontros...


"Meu último exercício de tentar me definir resultou em inúmeros adjetivos (a maioria de cunho negativo) desconexos no espelho. Tento me ver pelo que sou em cada fase, e a atual se parece mais com um intervalo entre algo que ainda não superei e algo que ainda aguarda por ser vivido. Sendo assim, como se enxergar na exata etapa em que você transita entre momentos da sua vida sem estar materializada em nenhum deles?

O fato é que quanto menos me vejo, menos me explico, naturalmente.

Tenho uma bagagem pesadíssima de mágoas na qual meu orgulho não me deixa mexer. Mágoa por ter sido deixada, mágoa quando sou esquecida, mágoa pelos dias se passarem e as coisas simplesmente não serem como deveriam ser. Mágoa por carregar um sentimento inquieto e que grita tão alto que deveria dar para ouvir de fora de mim. Na expectativa de que dê, fico calada.

Eu tinha um amor que poderia ilustrar páginas de dicionários, para que pudesse explicar por fim a alguém que ainda não havia entendido. Eu tive um amor com letras maiúsculas, com exclamação ao final, “com pichações na parede da minha vida com tinta fluorescente”. Um amor de se tocar com os dedos, de contemplar, de tentar inutilmente explicar com o mesmo prazer com que eu descobriria os detalhes de um corpo para reproduzi-lo num quadro.

Mesmo não precisando, parti esse amor em pedaços. Dei-me então o prazer de saborear o desamor e o desapego exatamente com o mesmo afinco. E com naturalidade: saía caminhando para o trabalho pela manhã tendo perfurado pessoas à noite. Tentei cultuar a antipatia com os que mais me importavam e a cordialidade com os anônimos e semi-anônimos do passar dos dias. “Da minha dor sei eu”.

Mesmo não precisando, parti esse amor em pedaços. Ele virou um souvenir do que eu não pude ter...

Aqui ficou um buraco tão enorme que eu optei por me cavar mais, por deixar de ser. Se não há terra, não há buraco.
Ou, se não há terra, só há buraco...

Da minha dor saiba você. Hoje perdi o sono tentando medir a extensão das minhas mágoas. Queria materializá-las em alguma coisa e incinerar. Queria desvinculá-la da história da qual ela nasceu e de mim. Queria me desconstruir, e me reconstruir de novo sem ter isso, largando debaixo de algum tapete. 

Quero ir embora, quero achar o meu papel que aqui não está. Não sou professora, não sou pesquisadora, tampouco tenho sido filha e já quis não ser irmã. Sei mais do que não sou, sou mais o que perdi.

Moro numa casa onde fica o meu ritmo e onde fica meu mundo. Mas meu mundo está de malas prontas, mesmo sabendo que vai junto a mágoa, e que o tempo vai lavar..."

Em 07/julho/2010