Porque eu odeio ser concluída da forma mais simplista e óbvia - Ah, ela é louca, depressiva e prolixa até o último suspiro de ar - eu obsessivamente evito, abomino e rejeito o impulso de resumir pessoas a só aquilo.
E por aquilo me refiro a reduzir as pessoas a poucas palavras, resumi-las aos parâmetros que meu sistema sensorial pode monitorar. Eu gosto mesmo é do que eu não vejo e preciso cavar para descobrir. Eu gosto mesmo é de como desconstruo e as pessoas aqui dentro, analisando peça por peça, no meu ateliê de análise do comportamento humano ao qual posso chamar resumidamente de minha cabeça.
O problema é quando cavo e me percebo desfolhando camadas de uma cebola. E uma cebola, sou forçada a concluir, é só uma cebola.
Eu gosto das pessoas por ângulos inusitados. De entender o propósito do calculista. Da graciosidade de dormir atravessada na cama com uma meia só. De ver que até nos mais rasos há alguma profundidade. Eu gosto das pessoas como quem gosta de um quebra-cabeça. Se eu pudesse largaria do ciclo dormir-acordar-trabalhar-dormir e desmontaria e montaria um a um, numa vida em que tempo não faria sentido.
Nesta manhã fui despertada por uma lembrança que me trouxe uma conclusão invasivamente amarga feito caju verde. Repuxou minha língua e fez minha alma se revirar por dentro.
(O telefone toca e não quero atender. Aliás, quero nem ouvir... Não quero apertar botão, dizer alô e responder que tá tudo bem e que hoje tá frio e cinza (como tem sido São Paulo desde tempos imemoriais). Agora não sou mais sentidos. Talvez nem sentido mesmo eu agora faça.
Voltemos...)
Fez estatelar meus olhos e zumbir um agudo na minha cabeça. Olhei o teto. Já não tinha mais sono. Pensar me tira o sono e hoje acordei pensando...
Lembrei de quando fui encontrá-la depois do trabalho, no cruzamento da Paulista com a Campinas. Dobramos na Alameda Casa Branca, contornamos o MASP em direção à Nove de Julho.
Caminhava à minha frente e suas costas fugiam de mim, me ignorando com o silêncio dos coagidos. Segui-a,
"não como anda um corpo, mas um sentimento".
Eu vinha reclamando desde a Paulista e de novo reclamei.
Você sabe que você não se orgulha da namorada que está sendo.
Ela riu, deixou escapar uma lâmina de ar por entre as frestas dos lábios e riu. Como odiei lembrar daquele som que o ar fez.
Pfff
Tomamos o ônibus e ela sentou ao meu lado.
O que você tem? O que você quer? O que te falta? Você queria que eu fizesse o que?
Odiei suas perguntas de mil respostas, às quais não pude dar resposta alguma.
Queria que nós ficássemos se esfregando que nem leãozinho?
Ela costumava fazer amor comigo segurando minhas costas com as mãos em forma de gancho, me imobilizando para mover em cima de mim o corpo dela inteiro. As pernas dela abriam as minhas, a propulsão dos movimentos firmes de sua cintura me impelia cada vez mais para dentro de nós, para que o que saía de mim se misturasse ao que saía dela.
Minha boca ficava presa à dela, com minha língua se desdobrando em movimentos desordenados, histéricos, desesperados. Eu deixava minha boca na dela para que, com sua língua, ela acalmasse a minha e abafasse o som sem sentido daquilo que só é dito nestes insólitos momentos.
Meus poros se abriam para que eu me desprendesse de mim. E naquele diminuto espaço entre meu corpo e o dela, onde nem partículas sub-atômicas cabiam, nos fundíamos, nos liquefazíamos e deslizávamos na água que nosso próprio corpo deixou sair.
Largava sua boca. Precisava de ar agora.
Ainda sentindo meu corpo faiscar, gostava de sentir seus cabelos resvalarem no meu rosto, como o toque do vento. Voltando à consciência, segurava seus braços e sentia o bíceps fortemente contraído. O músculo tonificado pela sua rotina de diariamente carregar a filha já grande nos braços. Eu me agarrava à proteção daquele músculo, fechava os olhos e sentia por longos minutos sua cabeça escorregando na minha nuca, escondendo seu rosto no meu pescoço. Como um felino que tenta acordar seu dono.
Queria que nós ficássemos se esfregando que nem leãozinho?
Tremendo a boca e com os olhos já úmidos, respondi.
Queria.
Não me lembro o que ouvi como resposta. Hoje, meses depois, acordei com a terrível constatação fora de hora: era dezembro. Ela já havia me traído e, por tê-lo feito, transfigurou-se numa pessoa que eu já não mais conhecia. Hoje cato pela nossa história vestígios do que ela fez após ter me traído e só agora é que me dói.
Impune, negligente, constrangida com a própria deslealdade, ela me ouviu acusá-la.
Você sabe que você não se orgulha da namorada que está sendo.
Impune, negligente, constrangida com a própria deslealdade, ela me respondeu um debochado sopro de ar.
Seja por covardia ou por canalhice, dá igual. Pelo menos naquele momento ela foi só isso.
Só aquilo.
"imediatamente após aquele ponto final, uma lágrima escorreu dos meus olhos e eu fiquei triste demais.
muito, muito mais do que eu esperava"