Mágoas e (auto-)desencontros...
"Meu último exercício de tentar me definir resultou em inúmeros adjetivos (a maioria de cunho negativo) desconexos no espelho. Tento me ver pelo que sou em cada fase, e a atual se parece mais com um intervalo entre algo que ainda não superei e algo que ainda aguarda por ser vivido. Sendo assim, como se enxergar na exata etapa em que você transita entre momentos da sua vida sem estar materializada em nenhum deles?
O fato é que quanto menos me vejo, menos me explico, naturalmente.
Tenho uma bagagem pesadíssima de mágoas na qual meu orgulho não me deixa mexer. Mágoa por ter sido deixada, mágoa quando sou esquecida, mágoa pelos dias se passarem e as coisas simplesmente não serem como deveriam ser. Mágoa por carregar um sentimento inquieto e que grita tão alto que deveria dar para ouvir de fora de mim. Na expectativa de que dê, fico calada.
Eu tinha um amor que poderia ilustrar páginas de dicionários, para que pudesse explicar por fim a alguém que ainda não havia entendido. Eu tive um amor com letras maiúsculas, com exclamação ao final, “com pichações na parede da minha vida com tinta fluorescente”. Um amor de se tocar com os dedos, de contemplar, de tentar inutilmente explicar com o mesmo prazer com que eu descobriria os detalhes de um corpo para reproduzi-lo num quadro.
Mesmo não precisando, parti esse amor em pedaços. Dei-me então o prazer de saborear o desamor e o desapego exatamente com o mesmo afinco. E com naturalidade: saía caminhando para o trabalho pela manhã tendo perfurado pessoas à noite. Tentei cultuar a antipatia com os que mais me importavam e a cordialidade com os anônimos e semi-anônimos do passar dos dias. “Da minha dor sei eu”.
Mesmo não precisando, parti esse amor em pedaços. Ele virou um souvenir do que eu não pude ter...
Aqui ficou um buraco tão enorme que eu optei por me cavar mais, por deixar de ser. Se não há terra, não há buraco.
Ou, se não há terra, só há buraco...
Da minha dor saiba você. Hoje perdi o sono tentando medir a extensão das minhas mágoas. Queria materializá-las em alguma coisa e incinerar. Queria desvinculá-la da história da qual ela nasceu e de mim. Queria me desconstruir, e me reconstruir de novo sem ter isso, largando debaixo de algum tapete.
Quero ir embora, quero achar o meu papel que aqui não está. Não sou professora, não sou pesquisadora, tampouco tenho sido filha e já quis não ser irmã. Sei mais do que não sou, sou mais o que perdi.
Moro numa casa onde fica o meu ritmo e onde fica meu mundo. Mas meu mundo está de malas prontas, mesmo sabendo que vai junto a mágoa, e que o tempo vai lavar..."
Em 07/julho/2010